Notícias da Educação
09.02.2026
O crescimento do uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes brasileiros tem acendido um alerta em especialistas em saúde e gestores da educação. Dados recentes indicam que 8,7% dos jovens utilizam os dispositivos. Número cinco vezes maior do que o consumo de tabaco convencional nessa faixa etária.
A secretária-geral da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Dra. Flávia Fonseca, destaca que a popularização do vape entre jovens está associada à facilidade de acesso e à percepção equivocada de menor risco. “A adesão alta ao cigarro eletrônico entre jovens costuma ser explicada por fatores que reduzem a barreira de entrada e aumentam a atratividade. O produto é discreto, tem sabores chamativos, cheiro menos desagradável e um apelo tecnológico que conversa com a identidade adolescente”, explica.
Segundo a especialista, a falsa ideia de segurança também contribui para a expansão do uso. “Há uma percepção muito disseminada de que é ‘só vapor’ e, portanto, menos nocivo que o cigarro, além de uma forte normalização social via pares e redes sociais, com conteúdos que acabam glamourizando o uso”, afirma.
Em agosto de 2025 o tema foi discutido durante a III Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), realizada em Boa Vista (RR), que reuniu secretários estaduais de educação dos 26 estados e do Distrito Federal, além de autoridades e gestores públicos.
Na ocasião, a Dra. Flávia alertou dos riscos para a saúde e desenvolvimento. A preocupação é ainda maior por se tratar de uma fase de desenvolvimento neurológico. De acordo com a médica, a nicotina possui alto potencial de dependência na adolescência. “A adolescência é um período de maior busca por novidade e recompensa e, por isso, a nicotina tem maior potencial de consolidar dependência nessa fase”, destacou.
Ela ressalta que os impactos não são apenas imediatos. “Os principais riscos são a dependência e a manutenção de um ciclo de uso que pode se prolongar por anos, além de efeitos respiratórios, como irritação das vias aéreas e piora de sintomas em quem já tem asma ou rinite.”
A Dra. Flávia também aponta que o uso do vape frequentemente não ocorre de forma isolada. “O cigarro eletrônico aparece fortemente associado a outros comportamentos de risco, como consumo de álcool, tabaco e drogas ilícitas, indicando um padrão de policonsumo e maior vulnerabilidade.”
Papel estratégico das escolas
Mesmo com a proibição da venda e propaganda dos dispositivos no Brasil, o consumo segue crescendo, o que coloca a escola como espaço central de prevenção. “A escola é um espaço estratégico porque é onde os adolescentes passam grande parte do tempo e onde as normas de grupo se formam. É possível atuar de modo repetido e estruturado, não apenas com uma palestra pontual”, assegura.
Para a especialista, o principal desafio é mudar a percepção de normalidade em torno do produto. “A escola pode mudar a conversa coletiva: tornar o vape menos ‘normal’ e mais reconhecido como risco, sem moralismo e com linguagem adequada.”
Ela explica ainda que a abordagem precisa ser objetiva: “Os estudantes precisam entender que a nicotina vicia e vicia mais facilmente na adolescência, que o vape não é inofensivo, que os sabores fazem parte do mecanismo de adesão e que muitas vezes nem se sabe exatamente o que está sendo inalado.”
Outro ponto essencial, segundo a médica, é oferecer acolhimento. “A escola precisa comunicar também o ‘e se eu já uso?’, com orientação e apoio, para evitar que o aluno esconda o comportamento e só procure ajuda quando já há dependência ou danos associados.”
Durante a reunião do Consed, a SBPT defendeu a implementação de políticas de prevenção no ambiente escolar. Entre as propostas estão programas educativos contínuos, integração com a rede de saúde e ações com famílias. “O ideal é um pacote combinado: política escolar clara de ambiente livre de nicotina, programa educativo ao longo do ano, integração com a atenção primária à saúde e ações com as famílias”, explicou a especialista.
Segundo ela, campanhas adaptadas à linguagem dos adolescentes também são fundamentais. “Campanhas curtas, repetidas e baseadas em mitos comuns ajudam a reduzir a percepção de inocuidade, desde que ligadas a uma cultura escolar de cuidado.”
Na época da reunião, a secretária de Educação do Distrito Federal, Hélvia Paranaguá, manifestou interesse em desenvolver ações piloto. “Coloco o Distrito Federal à disposição da SBPT para a realização de um projeto piloto em nossa rede de ensino, com a perspectiva de expansão para outros estados”, afirmou durante o encontro.
O Consed também avalia a construção de uma campanha nacional, aproveitando a capilaridade do Conselho para ampliar a conscientização sobre os riscos associados ao uso de cigarros eletrônicos entre crianças e adolescentes. Para o Conselho, a prevenção ao uso de substâncias psicoativas entre crianças e adolescentes passa pelo fortalecimento da escola como espaço de cuidado, informação qualificada e articulação com políticas públicas intersetoriais, especialmente nas áreas de saúde e assistência social.