Uma floresta em dois anos: Como escola de SP se transformou em exemplar da Mata Atlântica em meio a prédios da zona leste

São Paulo

26.05.2026

Uma floresta em dois anos: Como escola de SP se transformou em exemplar da Mata Atlântica em meio a prédios da zona leste
EE Professor João Dias da Silveira recebeu plantio de 630 espécies por meio de parceria com a organização formigas-de-embaúba; estudantes ganharam espaço de convivência e de respiro e sala de aula ao ar livre

Entre prédios no bairro Tatuapé, na zona leste da capital paulista, uma área de 415 metros quadrados dentro da Escola Estadual Professor João Dias da Silveira se transformou em mini floresta com cerca de 630 espécies de árvores nativas da Mata Atlântica. Em dois anos, o espaço com um gramado e apenas uma árvore passou a abrigar ambientes com trilhas, sombra, pássaros e espécies como pitanga, uvaia, goiaba, grumixama, ipê-amarelo, pau-brasil, jatobá e jerivá.

O projeto foi implantado na unidade da rede estadual a partir da parceria com a organização sem fins lucrativos formigas-de-embaúba, que promove educação ambiental e climática por meio do plantio participativo de mini florestas urbanas. Na unidade estadual, o projeto foi iniciado no segundo semestre de 2024 e envolveu estudantes, professores e a comunidade escolar.

Vice-diretora da escola, Andreia Rodrigues Caldeira Correa acompanha a transformação do espaço desde o início. “O espaço era um gramado. Quando crescia o mato, era uma área bem grande para fazer o corte, ali só tinha um uma árvore bem grande e os alunos não utilizavam o espaço. Isso se transformou totalmente e hoje somos um pontinho verde no meio do Tatuapé. A gente pode dizer que em dois anos é possível criar uma floresta. A temperatura no local é muito mais agradável, o ambiente da escola melhorou bastante na época de calor”, afirma.

Hoje, o espaço é utilizado pelos estudantes durante os intervalos e também em atividades pedagógicas. Um exemplo é que, no primeiro bimestre deste ano, turmas da 1ª série do Ensino Médio estudaram biomas percorrendo a trilha aberta dentro da própria floresta.

Segundo a organização formigas-de-embaúba, a mini floresta foi criada a partir do método Miyawaki de restauração ecológica, adaptado para a Mata Atlântica. O processo inclui descompactação do solo, adubação orgânica e plantio adensado das espécies.

A presença de aves e insetos também passou a fazer parte da rotina escolar. “Esses dias apareceu um jacu aqui na escola, têm muitos pássaros e borboletas”, relatou a vice-diretora.

Parte dos estudantes da escola participou diretamente do plantio das árvores e acompanhou o crescimento da floresta desde a primeira série do Ensino Médio. É o caso de Pedro Almeida Marques, de 17 anos de idade, atualmente matriculado na 3ª série. “A experiência de acompanhar esse processo começou a se transformar quando a gente começou a fazer os plantios. Me sinto orgulhoso de ter participado e acompanhado tudo desde o começo porque você não tem expectativa de que a floresta vai crescer tão rápido. Quando a gente saiu para as férias, no fim do ano, nada tinha crescido, e quando voltamos em 2025 as árvores já estavam crescidas”, conta Pedro.

Para ele, participar do projeto também trouxe outra percepção sobre a preservação ambiental. “Plantar, fazer parte de mudar algo é muito bom, você se sente bem”, diz.

Além das árvores nativas da Mata Atlântica, a escola também mantém espécies como manjericão, banana e abóbora em parte do terreno. Mesmo em pouca quantidade, quando possível, esses alimentos são incorporados à merenda escolar. Segundo a vice-diretora Andreia, o espaço também passou a ser mais preservado pelos próprios estudantes. “Eles respeitam bastante esse ambiente. Eles adoram ficar nesse espaço”, considera.

Para Rafael Ribeiro, cofundador e diretor de parcerias e plantios da formigas-de-embaúba, o envolvimento dos estudantes é um dos principais resultados do projeto: “A formigas-de-embaúba realiza escuta direta com a comunidade escolar e também medições de impacto. A gente observa aumento da sensibilização ecológica dos estudantes, maior engajamento nas atividades e fortalecimento do vínculo com o espaço escolar”.

Segundo Rafael, neste momento a organização atua no mapeamento de escolas estaduais da capital e da Grande São Paulo com potencial para receber novas mini florestas. Desde 2023, a organização já implementou projetos em nove escolas estaduais, com o plantio de aproximadamente 7.200 árvores e atendimento de mais de 3 mil estudantes.

Na Escola Estadual Professor João Dias da Silveira, a expectativa é que a floresta continue crescendo junto das próximas gerações de estudantes. “Quando o pessoal do grêmio faz o acolhimento no início do ano, eles falam: ‘foi a gente que plantou quando estava na primeira série’. Agora, eles estão na terceira série e têm muito orgulho da floresta”, diz a vice-diretora. “Vou sentir falta da floresta quando me formar no Ensino Médio. Eu sempre vou até quando estou em dias ‘mais ou menos’ e é muito legal entrar ali dentro”, conclui o aluno Pedro.

A partir do plantio, nos primeiros três anos, a manutenção da mini floresta é realizada exclusivamente pela equipe da formigas-de-embaúba, com visitas periódicas. Uma delas acontece nesta terça-feira, dia 26 de maio. Por isso, segundo Rafael, “outros prestadores de serviço da escola não realizam manejo dentro da área, pois o cuidado exige técnicas específicas. O manejo é feito com capina manual seletiva, focada na remoção de gramíneas invasoras, e com manutenção da cobertura do solo. Como o plantio é adensado, seguindo a metodologia de mini florestas, ao longo de cerca de dois a três anos o sombreamento das próprias árvores reduz naturalmente o crescimento do mato”.

Na rede estadual de ensino, o projeto é implantado a partir de parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), e não onera os cofres públicos. Além da escola Professor João Dias da Silveira, o projeto já está na EE Maria Prestes Maia, Professor Amador Arruda Mendes, Professora Sumie Iwata, Yervant Kissajikian, Alexandre von Humboldt, Samuel Klabin, Henrique de Souza Filho e Professor Cícero Siqueira Campos. Na escola do Tatuapé, a implantação contou com apoio da ONG suíça SUGi.