São Paulo
06.03.2026
Professora de São Bernardo do Campo cria aula para empoderar alunas contra violência financeira
À frente das aulas de matemática e educação financeira da EE Diplomata Sérgio Vieira de Mello, Daniela dos Santos propôs a criação de uma turma exclusiva com alunas mulheres
Nas escolas de ensino integral da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), além das disciplinas comuns do Currículo Paulista, professores e estudantes são incentivados a criar novas turmas a cada semestre. São as chamadas disciplinas eletivas, que devem apoiar o projeto de vida dos alunos. Na Escola Estadual Diplomata Sérgio Vieira de Mello, a professora de educação financeira e matemática Daniela Aparecida Gomes dos Santos criou, neste ano, a disciplina “Protagonismo feminino na educação financeira e empreendedorismo”. O objetivo é apresentar ferramentas para que as alunas tenham consciência e possam se proteger dos riscos da violência financeira e patrimonial, uma das manifestações da violência contra a mulher amparadas pela Lei Maria da Penha. O conteúdo proposto pela professora Daniela dialoga com as aulas de educação financeira do Currículo Paulista, disciplina fixa implantada em 2024 pela gestão.
As aulas eletivas na rede estadual de ensino são componentes curriculares flexíveis e optativos, permitem que os estudantes escolham temas de interesse para aprofundar conhecimentos e desenvolver habilidades práticas. O modelo promove a conexão entre diferentes áreas do saber e busca alinhar o aprendizado aos sonhos dos alunos. Na unidade de São Bernardo do Campo, as atividades ocorrem às terças-feiras, entre 14h05 e 15h45.
A iniciativa da professora Daniela dos Santos foi inspirada em sua própria história pessoal. Mesmo com formação em administração e matemática, ela conta que enfrentou prejuízos financeiros após um relacionamento de 13 anos. Durante o relacionamento, o então casal comprou um apartamento registrado apenas no nome do parceiro para economizar nos juros do financiamento. Após a separação, ela perdeu os bens e enfrentou uma disputa judicial. "Eu quis trazer essa vivência como um alerta para as minhas alunas, para que elas não tenham que passar por essas coisas pela falta de conhecimento. Se naquela época eu tivesse essa consciência, eu poderia ter feito um contrato para me resguardar. Para criar essa aula, tive muito apoio da coordenadora da escola, a professora Ieda Maria", explica.
Daniela reforça a importância do preparo emocional e técnico. "A gente faz o seguro do carro, mas não quer ser assaltado. A gente faz um plano de saúde, e não quer parar no hospital. As mulheres precisam criar meios para se resguardar e é por isso que essa aula foi criada, para que elas estejam respaldadas no caso de relacionamentos que se encerram”, pondera.
Para a estudante Agata Alves, de 14 anos de idade, o conteúdo é inédito em sua trajetória. "Eu acho que essa aula é importante. A professora ensina coisas que ninguém nunca chegou em mim e me ensinou, para eu pensar quando eu crescer", afirma a aluna da 1ª série do Ensino Médio.
A disciplina criada pela professora dialoga com as aulas regulares de educação financeira. Daniela afirma que a base curricular oficial despertou o interesse dos jovens. "As aulas de educação financeira apresentam novas discussões para nossos alunos. Quando a gente olha a realidade dos nossos alunos, dependendo de onde está localizada a nossa escola, falar de dinheiro é muito complicado porque a ausência de dinheiro é muito presente. Quando a gente começa a plantar essa sementinha agora, isso se torna algo presente na vida deles. Isso traz uma autonomia econômica para eles decidirem sobre sua formação, sobre um emprego e sobre a realidade da vida deles", diz a professora.
Ela elogia a diretriz da Secretaria da Educação ao incluir o tema no currículo: "É muito importante a nossa Secretaria pensar no conhecimento do aluno para entender como ele vai projetar o futuro dele. A Educação está pensando o aluno como uma estrutura para o futuro".
Educação financeira na sala de aula
Desde 2024, a educação financeira tornou-se disciplina do currículo oficial das escolas estaduais paulistas. Com a mudança na matriz curricular promovida pela atual gestão, a Seduc-SP incluiu o componente na 1ª e 2ª série do Ensino Médio e nos 7º e 8º anos do Ensino Fundamental.
A medida atende a mais de 1 milhão de estudantes, que contam com material didático produzido pela Subsecretaria Pedagógica (Suped). "Essa oportunidade de ter aulas de educação financeira é importante para o futuro deles, não é só aprender para passar de ano", conclui a professora.