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Distrito Federal 12:32, 16 out 2020 Duas professoras, três coincidências e o mesmo amor à profissão

Duas professoras, três coincidências e o mesmo amor à profissão

São 47 anos de diferença de idade, a posse de uma aos 47 anos de serviço da outra e a mesma região como primeiro local de trabalho


Ser professor é mais que uma profissão, é um ato de amor. Ontem ou hoje, cada docente dedica a sua vida para servir outra que está apenas começando. Essa é apenas uma definição resumida de quem já viveu mais de quatro décadas pela Educação. Na rede de ensino público do Distrito Federal, em meio aos mais de 35 mil professores da Secretaria de Educação do Distrito Federal, duas fases se encontram no caminho de gratidão e paixão pela profissão – quem já leciona há muitos anos e quem está entrando agora na rede. São duas gerações que, este ano, se esbarraram no mesmo desafio imposto para o ensino: uma pandemia.

A matrícula de uma dessas personagens é de 19 de julho de 1973. Rosemary Sales Uchoa de Castro Lima, 72 anos, pretendia seguir outra trilha, a do Direito, mas mudou de caminho literalmente na hora da matrícula na PUC-RJ. “Eu não ia ser professora, mas no meio do trajeto para a faculdade, para efetivar a matrícula, mudei de opinião. Quando cheguei em casa meu pai questionou se eu havia me matriculado em Direito e eu disse que não, mas em Letras. Para o espanto dele”, conta.

Rosemary era filha de servidor público. O pai, por ser funcionário do Banco do Brasil, precisou vir para Brasília em março de 1971. Em 1973, já formada no curso de letras, aos 22 anos de idade, e atuando em escolas renomadas da rede privada, ela passou em concurso público para professora em terceiro lugar e foi lotada na cidade do Gama.

Hoje Rosemary trabalha na coordenação do CEF 103 da Asa Sul, mas já passou por unidades em todo o DF. Com a voz embargada, a professora elege uma escola como a preferida, a Escola Classe do Setor Militar Urbano. “Eu fui para lá sem querer, era muita criança, e trabalharia apenas como coordenadora. Mas me apaixonei pela escola, que é excelente. Aprendi muito lá”, relembra. O episódio é recente. Em março deste ano Rosemary saiu da EC do SMU para o CEF 103, e logo veio a pandemia.

O cenário das aulas on-line não assustou a professora, que apesar de ser de uma geração antecessora a toda essa tecnologia, já tem o costume e o contato com as pesquisas e mecanismos da internet. A docente é mestre em Ciências da Educação e em Políticas Públicas, formada em Portugal, e atribui o aprendizado ao sucesso no uso das plataformas atualmente. “Estou em teletrabalho. Tenho assistido a ótimas aulas. Ali mesmo faço o relatório das atividades da semana, além de participar, toda quarta-feira, das reuniões”, detalha.

A professora é otimista e acredita que as mudanças dos últimos anos foram para melhor. Quanto ao ensino na pandemia, ela não titubeia: “tem tudo para dar certo. A gente vê pessoas interessadas e como elas podem dar o melhor de si. Acho que essa tecnologia veio para ficar, mesmo quando as aulas presenciais voltarem”, opina Rosemary.

Mãe de dois filhos advogados e casada com um médico, a professora brinca que a profissão deles é mais difícil que a dela, mas todos sempre a apoiaram no amor pela sala de aula, assim como a docência a ajudou no trabalho de casa. “Mesmo com a minha profissão nunca deixei de cuidar dos meus filhos”, ressalta.

E se tivesse que voltar no tempo?

“Eu teria duas profissões, seria advogada e professora”. No momento, Rosemary está em dúvida, não sabe se cursa um doutorado ou realiza o desejo de cursar Direito. “Não falta vontade, quem sabe”, ela reflete. A professora não está muito preocupada com o “quando” nem “como”. No auge dos 72 anos, ela garante muita disposição e coragem, ficar parada não está nos planos. “Tem gente que pensa que eu tenho 50 anos”, brinca.

Apenas começando

Os anos de serviço à Educação no DF de Rosemary representam exatamente a diferença de idade entre ela e a professora mais jovem da SEEDF. Letícia Fernandes Costa está chegando agora na rede, aos 25 anos. A nova servidora foi empossada em agosto deste ano e, apesar de já conhecer a casa, como professora substituta, está tomando seu lugar como efetiva, e certa da escolha que fez. “Estou muito feliz em fazer parte da rede da Secretaria de Educação porque sempre admirei muito o trabalho realizado no Distrito Federal”, revela.

Atualmente, a lotação da recém-empossada é o Jardim de Infância 02 do Gama, por coincidência, a mesma cidade onde a Rosemary foi designada no início da carreira. Mas a lotação também é provisória e Letícia deve seguir novos rumos com o remanejamento. Para a docente, desafio aceito. Afinal, por amor, quando ainda era professora substituta e antes da pandemia suspender as aulas presenciais, ela já fazia, todos os dias, o percurso Luziânia (GO) – Gama (DF) sem pensar duas vezes.

“Vale muito a pena. Desde criança eu sonho em ser professora. Nunca tive outra profissão em mente, acho que é vocação mesmo. Gosto de ensinar e sou apaixonada pelas crianças”, diz a jovem docente, que também leva a pandemia como aprendizado e não se arrepende. “No início foi muito difícil, mesmo para mim, que já tinha conhecimento em tecnologia e precisei aprender bastante coisa nova. Os cursos da SEEDF foram muito proveitosos e, mesmo quando voltarmos com as aulas presenciais, teremos benefícios com essa nova realidade”, analisa.

Ainda que esteja dando um passo de cada vez, a pedagoga pretende fazer um mestrado na área de Educação e, mais tarde, chegar às universidades para lecionar. Enquanto isso, ela segue com o plano de inclusão para todas as crianças dentro e fora de sala de aula. “Almejo poder dar continuidade ao trabalho de inclusão de todos aqueles que ainda precisam e, assim, desempenhar plenamente o meu papel como professora e transformar vidas”, idealiza Letícia.

*As fotos são de arquivos pessoais e foram feitas antes da pandemia.

Nathália Borgo, ASCOM/SEEDF

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